Terceira semana (Relato do professor)

A terceira semana foi curiosa, no mínimo. Agora é que começam a se desenhar as particularidades de cada turma e que todos começam a se “adaptar”, ou não, ao tipo de cobrança que estão tendo e ao tipo de “curso” que esta sendo oferecido a eles.

Embora eu tenha muitos alunos que visitam o meu site, esse blog e os blogs recomendados nele (do Helder e do Gonçalo), ainda tenho muitos alunos que não se interessaram por eles. Na verdade continuo tendo muitos alunos que não conseguiram se desprender de uma cultura de “desinteresse” alimentada pela falsa crença de que a escola seja apenas um lugar para passar o tempo (crença essa que foi plantada e regada na escola pública, e continua sendo, desde o advento da progressão continuada – embora não seja uma decorrência necessária desta). Essa é uma batalha difícil e que parece bem distante de muitos teóricos que imaginam que o professor só precisa de um “pouquinho de boa vontade” para fazer com que seus alunos “desejem” aprender.

Nessa terceira semana dei especial atenção ao acompanhamento dos alunos no que se refere a forma como eles têm encarado as atividades e as tarefas. É curioso como a maioria deles não se mostrou muito empolgada com o material (o Jornal do Aluno), apesar do material ser bom. Muitos têm dificuldade de compreender os textos e as instruções, apesar de serem relativamente simples, e uma grande maioria não consegue ainda trabalhar de forma autônoma. Poucos têm interesse em colher informações complementares, apesar delas estarem sendo oferecidas e estimuladas.

A discussão das atividades e das tarefas tem sido um momento importante de aprendizagem, tanto porque é quando os alunos têm um feedback sobre o que fizeram, quanto porque é quando tenho a oportunidade de acrescentar meus comentários e complementar o material de que eles dispõem. Via de regra eles gostam desses comentários e ficam motivados.

O fato dos alunos demonstrarem interesse pelos comentários das atividades e tarefas tem um lado incompatível com a idéia de “programação aula-aula” do Jornal: não há tempo hábil para se extender em comentários e complementações e, ao mesmo tempo, dar conta do arroz com feijão proposto no Jornal do Aluno. Os tempos não foram corretamente estimados, pelo menos não para mim.

Outro fator complicador é que grande parte dos alunos não sabem trabalhar em equipe e mais se atrapalham (dispersam) do que se ajudam. Esse comportamento dispersivo varia de turma para turma, mas é um comportamento generalizado que reflete uma idéia errada de que eles não têm autonomia e que devem sempre aguardar que o professor lhes diga exatamente o que fazer a cada passo. Ler as instruções, as perguntas e os textos de apoio não faz parte da rotina da maioria dos alunos. Essa é outra batalha longa a ser travada.

Uma estatégia que tem dado certo é a criação de atividades (ou dinâmicas) que exigem a participação de todos, ora como uma forma de competição entre fileiras, ora como desafios coletivos. Essas atividades (ou dinâmicas) são excelentes, mas demandam tempo também e, mais uma vez, os autores do Jornal parece que calcularam o tempo de aula como um contínuo em que todos os alunos estão profundamente interessados em ler os textos, comentá-los e fazer as atividades. Isso é uma utopia bem distante da realidade da minha escola.

Outro fator que tem atrapalhado é a divisão das aulas em cada turma. Como só tenho duas aulas semanais e essas nem sempre são “duplas”, a cada aula é preciso refazer toda a parte burocrática referente à chamada nominal, verificação de tarefas e registro de atividades. Além disso, há ainda o tempo de acomodação inicial da sala e o tempo de descrição das atividades do dia. Pode parecer que não faz muita diferença, mas é só estar dentro da sala de aula para se saber que faz muita diferença.

Fecho a terceira semana com um atraso médio de duas aulas em relação à programação do Jornal do Aluno. Atraso que varia de classe para classe. Espero que nas próximas semanas seja possível determinar melhores estratégias para melhorar o rendimento das turmas com maiores dificuldades.

Em tempo: os textos produzidos pelos alunos denotam grandes dificuldades de expressão, considerando que são lunos do Ensino Médio. Muitos poderiam ser classificados como “analfabetos funcionais” e, por isso mesmo, espero que essa ação conjunta de todas as disciplinas colabore para o letramento dos alunos. A parte chocante disso é que os próprios alunos não podem ser culpados por estarem no mínimo a oito anos na escola e ainda não conseguirem se expressar de uma forma aceitável. A culpa é da escola (de todo o sistema), sim senhor, mas deixemos essa análise para outro tempo e outro espaço.

Destaco com alegria que a maioria dos alunos dos segundos e terceiros anos têm trabalhado bem com gráficos e tabelas. Já no que diz respeito à resolução de equações e cálculos aritméticos, ainda que simples, os problemas tendem a requerer soluções a médio prazo e exercícios de fixação.

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